Azulejista

Da vontade de fazer

da vontade de fazer

cristina ribas

Reunimos um conjunto de gentes, cheias da vontade de fazer, e nos colocamos dentro do porão: espaço de esconderijo. Com a idéia da exposição, fui enfrentada pelo fato de estar diante do público (pessoas, povo) aqui, no centro da cidade, e ainda, abaixo do poder. Vemos a rua com o corte da calçada. A elaboração da Contemporão permitiu elencar averiguações para meu trabalho e para um certo status [estado] da arte, que, fico feliz, vêm também pelo texto.

A D E N S A M E N T O

Acredito que no laboro da arte há uma sensação que se instala e que contamina toda a ação artística futura: uma fadiga operativa. Posso começar pela desmontagem (sempre silenciosa e solitária) ao final da exposição, que faz desaparecer aquele universo de relações que se propunha, e um sem-lugar para as ‘obras’ se apresenta. Isso pode ser uma pista sobre os princípios, sobre como estamos ou como é que operamos em arte. Meu olhar para o desaparecimento da situação artística, muitas vezes, é o mesmo do embriagado começar. Torna-se difícil acreditar na próxima empreitada, mas me vêm em pensamento a exigência pelas ações afirmativas em arte.

Voltamos, melhor, nunca saímos dela. O que nos seduz e motiva é o momento de acontecimento da própria obra, na sua especificidade de ação (microcosmo?), apesar de nunca estarmos certos de que alguém vai requisitar participação. Investimos no pequeno instante a decifrar, proposto pela realização artística, desejosos de que esse depósito seja mais um pequeno-pacto e abra uma pequena-experiência. Mas no entanto, pensando o sistema das artes (macrocosmo), quando aceitamos as condições de realização de exposições genericamente oferecidas, será que não nos entregamos à inércia do movimento? Como uma espécie detenção voluntária? A mim parece que, economicamente falando, deixamos transferir o objeto ou a ação artística – gerados no universo do simbólico-, a um vácuo valorativo. É difícil acreditar que exista apego ao simbólico (aquele proposto pela arte) nesse mundo onde os valores são especulativos e voláteis. E aqui não se fala do emprego de valor (preço) à produção de obras de arte enquanto objetos cambiáveis, mas sim à própria operação artística.

A exposição começa a acontecer muito antes de sua montagem, isso é sabido. Quando aceitamos/propomos uma proposta de realização em arte independente (com recursos próprios, e sem a exigência de um retorno financeiro) me parece muitas vezes que reproduzimos uma ação apolítica. Olhando macroscopicamente, para as estruturas da arte, afirmamos a aceitação de uma realidade que está dada histórica e culturalmente, e ainda, localmente. Estando mergulhados na inércia histórica (do conformismo dos acontecimentos possíveis da arte) e carregados [loaded] da vontade de fazer, muitas vezes nos tornamos sujeitos passivos da escrita de outras possibilidades. Como descer e não olhar para os lados.

Acredito que o problema hoje, para a arte, não é tanto que seja vista (já que em muitas situações é liberada velozmente pelos veículos de massa), mas que seja desejada. Sendo desejada será planejada [emprego do tempo] por todos aqueles que a fomentam e vivem dessa produção. Artistas, seus pares, interessados, sujeitos, tímidos, instituições públicas, instituições privadas. Trabalhando dessa forma, talvez possamos em conjunto configurar um valor que será atribuído ao laboro da arte, sua produção. E não tanto seu valor simbólico (que deve igualmente ser averiguado e reconstituído), mas sim um valor que é, em moeda, aquele mesmo outro que também move o mundo.

Na reunião para o Contemporão as pequenas revoluções internas das questões não resolvidas se reinstalam. Sem dúvida, é trabalhando nela – de dentro da arte -, que as questões podem ser perguntadas. Entramos no porão ali abaixo. Mas como podemos fazer dessa ação uma proposta sustentável? Não tanto de uma presencialidade histórica (como e com que finalidade?), mas sim da manutenção no primeiro estágio, o da produção. Há uma coerência nessa relação de produção que se está para construir, para que aquilo que se realiza enquanto arte parta antes de uma segurança profissional.

Mover-se pela arte, hoje, acontece por um fazer operativo intraduzível: ações que desenham objetividades mas que permeiam inobviedades. No cotidiano da arte não há regras a seguir, ao menos não pode haver. Desenhamos a cada momento a ação futura, mas não podemos fazê-lo sem olhar para essa história à qual nos inscrevemos, cuidando para que as experiências que desviam e acrescentam, estejam devidamente visíveis, porque elas operam politicamente.

Se no laboratório da criação a ação artística é possível, posteriormente, no momento de sua configuração, a ela se faz provar a sociedade, e se faz necessário o momento da troca. Me sacio(?). A todo o momento preciso me perguntar: como saio dessa para uma próxima ação em arte?

Este texto foi escrito no contexto da exposição Contemporão, realizada em Porto Alegre, 2004. E publicado no Jornal Contemporão.  (tiragem 2.000 exemplares)

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