Azulejista

Três situações ridículas

Para a(s) bicicleta(s) do Tiago Rivaldo

Três textos românticos, escritos a partir do trabalho de Tiago Rivaldo e de andanças pedaladas nas imediações da Tijuca. Estes textos são uma continuação da conversa começada para a publicação de “Abre Alas” uma exposição da Galeria A Gentil Carioca, da qual Tiago participou com o trabalho/performance das bicicletas, em março de 2008.

Segunda situação.

Somos eu e a bicicleta. Aí vem interferir na relação uma sacola cheia de frutas, verduras. Passei no hortifruti e me esqueci que estava de bicicleta. Que condição ridícula esta de pender para um lado. Desgovernada. Só posso olhar para a sarjeta da direita, à esquerda ficam os buracos que não vejo, retrovisores esbarrados, gritos de xingamento. Tonteio, ridícula situação de dependência. Para o lado direito. Nem tenho outra sacola para dividir o peso, e se assim conseguisse, ainda só por milagre. Porque a sacola pesada tanto pende para a direita como se roça para baixo com a roda da frente, enrosca no fio de aço do freio. Peso lateral. Não sei jogar nessa posição.

Terceira situação.

Ela me toma por trás. Sacana. Pesa o corpo para trás e me faz andar bem devagar. Sinto todos os percalços abismos rasuras do caminho. Rua escavada pelo pneu do ônibus. Dimensão minuciosa da topografia asfáltica. O pneu furou logo na ida. Eu ainda ia. Recém. Nem pensava em voltar. Caio tanto que. Recuo todo o corpo, como se sentasse sobre o cóccis. Foda a bicicleta quando ela está ao contrário. Melhor, em contra. Me agarra por trás enquanto eu só quero olhar para a frente, porque o vento que vem bagunçando o cabelo. Não é um espelho do que passou, parto para o que vem. Quem viaja quer olhar para o futuro. A bicicleta me agarra rente ao passado. Recente. Atrás de mim, não posso lidar.

Quarta situação.

Este dia foi lindo. Bem me lembro. Liberdade. Topando curvas ásperas e solavancos desejados nas calçadas altas que circundam as árvores.

– Tem cinamomo no Rio? (Eles vieram da Índia.) No sul tem cinamomo. A gente se joga. Pega um galho. Joga no olho dos primos.

Então tínhamos passado as calçadas dos cinamomos (assim pareciam), a Praça Vanhargen. Rua Major Ávila. General Roca, à esquerda. Almirante Cochrane. Obstáculos. Pessoas, crianças devagar. Poodle, o dono. Desço para o asfalto – salto, rally, ônibus na contramão

– Caraca!, Ufa.

Desvio. Ele ajuda, manobra e me dá espaço, um metrinho na contramão entre as árvores e ele (nem dá tempo de olhar pra cima), duas rodas imensas, só deste lado, e um paredão de metal rugindo em direção à Saens Peña. Solavanco de novo, volto à calçada pedra portuguesa remendada. Saída do estacionamento. Entro feito bailarina forçuda, movimentos largos e leves. Quase atropelo de graça um homem que passa a pé e me delicio na ousadia de ser mulher (agressiva). Pobre homem-homem (só um homem). Estacionamos. Eu e ela, magrela, bem que as minhas coxas são mais fortes que as dela. Roxa. Sem adesivos, velhinha esfarrapada, conhece tantas cidades quanto eu, menos Recife. Fica presa entre as argolas pra prender gentes do tipo dela. Cadeado no seu corpo, roda, ferrugem da maresia e da chuva que toma no pátio. Suave tchau, subo pra comprar no market. Tarda pouco, fotografias e alguns biscoitos. Laranjas nem vale a pena. Muito agrotóxico e pouco suco. Desço na velocidade de seguir. Encontrá-la e dar a volta fazendo um caminho mais longo, contornar a Pedra da Babilônia pela Dulce, sair na S.F.Xavier, um pedaço dela na contramão depois Maracanã e quase em casa. Enquanto desço a rampa do mercado – pés leves sobre o pedal – coxas duras de fome – desenho o mapa e ela, magrela, fiel a esperar. Sem óculos demoro a ver seu perfil, escusa entre as outras Barra Forte, Barra Forte, outra, poucas. Bem poucas. Aquele estacionamento perto da calçada era só ela quase sempre. Mas logo aquele dia. Tantas outras. E ela, logo ela. Deformada, não me reconheço nela: falta-lhe uma parte do corpo, levaram a parte que toca a mim, não posso seguir. Roubaram o banco da bicicleta.

No balcão das reclamações me atrapalho e pergunto:

– Aqui tem cinamomo?

Cristina Ribas

Rio de Janeiro, Maio de 2008

*Texto inédito

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