Azulejista

Provação

Provação

Para a Bocaina de Julio Callado

 

Ofegante. Ofegante. Respire mais rápido. Não contenha essa reversão. De repente você pode começar a suar, acelerando mais o corpo.

 

Nesse ofegante momento, de repente, você vê natureza pelo filtro de uma sombra. Natureza pele pura. Floresta sem fundo. Com essas imagens somos acordados a (ver) que ali não há passividade. Nem reanimação. Não há contemplação pura. A natureza tem um jeito. E aqui, quase não há objetofoto. Você mesmo está como que entre câmeras. Causado por um instante dilatado. Suado e mesmo verde. Mas não só. Você excita o ritmo e faz respirar como aquilo outro, que também é vivo.

 

Coleta passagem. Colheita. Age como se pudesse reduzir o potencial instantâneo do dispositivo-câmera, e fazer dele mesmo um dispositivo-poros, membrana, superfície, espessura. Mas a lente arranha, a luminância arranha, o foco arranha. E a câmera entra em fusão com o próprio andarilho. E, se faz de conta que tem corpo de poros, ela ainda assim sinaliza sua ação antropológica. É a câmera que congela uma passada de perna atarefada que vai em colheita. E esquadrinha um pedaço de terra como se fosse um satélitechão. Estoura um pedaço e apresenta detalhes.

 

O andarilho tem descoberta. São câmaras por dentro da mata (os fornos, que incitam outras sombras). Então nessa passagem-rito efeitos dobram as sombras, e de um jeito saem conhecimentos tortos, tropeços e medos súbitos. Fantasmagoria. Um mundo que cresce, “aumentado” como disse Manoel de Barros.

 

Tal como na câmera-olho de Dziga Vertov, apontando, porém, a câmera para “outro lado”, Callado abre a pupila do dispositivo e passamos a ser engolidos por essa penetração constante. Disforme, a paisagem, de dentro, encapsula aquele que vê. E quanto mais você sua, mais entra na passagem (e se comportando como membrana, você e a passagem são pedaços contínuos e descontínuos de um modo de ser). De selvagem a rebelde, de nômade a poeta, o caminhante se torna íntimo daquelas entranhas: o atravesso se torna fricção, sentido.

 

Provocada também pelo ir-se, a palavra é uma outra membrana. Tipo malha que te enrosca, barba de bode pra ser lida. E emaranhada de momento-olho, esse outro recupera aquela respiração. Ele conta a você, naquele tom-festejo de descoberta (“!!”) de uma sensação nova, uma “estranha alegria”, de sair assim “arranhado e coçando”. O texto te joga a seu modo, a estar “deitado na realidade” com Alberto Caieiro. Um chamado.

“Bocaina”, exposição de Julio Callado

Na provação desse estado ritmado de deslocamento, provoca um tempo sobre o que você tinha. Na passagem a pressão do tempo é uma passada trilha abaixo, trilha acima. Se você estivesse dentro do forno veria com a boca da mata um silêncio bem cheio, crispado, nítido porém ruidoso. Se você dispõe de corpo, ele arranha e já não sabe de aqui ou de ali, então Bocaina, te engoliu.

 

Texto escrito para a exposição de Julio Callado na Galeria TAC – Toulouse Arte Contemporânea

Setembro 2011

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